Especial - Crianças Geradas
Na era em que a ciência pode realizar sonhos, e os filhos chegam por diferentes caminhos, criar um ambiente emocionalmente seguro e saudável é essencial para favorecer um desenvolvimento, com menos angústias e conflitos
Há um momento na vida compartilhada de um casal em que algo novo desperta-se; os bebês que antes passavam despercebidos, começam de repente a chamar atenção e a casa onde viviam dois, parece ter espaço para mais um. É quando o desejo de tornarem-se pais dá uns de seus primeiros sinais, e embora não seja regra, isso faz parte da construção familiar.
Mas o que fazer quando o pequeno e tão sonhado rebento não vem ou não pode vir, pelos meios biológicos convencionais? Inúmeros são os motivos que podem impedir esse processo, desde infertilidade do casal, incompatibilidade genética, comorbidades, até novos modelos familiares como casais homoafetivos masculinos ou femininos?!?
Nos últimos 10 anos, com o desenvolvimento tecnológico e com a flexibilização dos costumes, ampliaram-se também as possibilidades de chegada de um filho. Além da tradicionalmente conhecida paternidade via adoção, houve um aumento significativo na procura de banco de esperma, doação de óvulos, e um grande número de filhos nascidos de casais homoafetivos. Essas técnicas contemporâneas não apenas transformaram a forma como os filhos chegam, mas também, a história que se constrói a partir deste nascimento. Diante disto surge uma questão importante: Como os pais podem conduzir a formação psicológica desses filhos, considerando sua história de origem?
A noção de origem faz parte da estruturação da personalidade, todos em algum momento da vida questionamo-nos quem somos e de onde viemos, e a partir dessas respostas e da forma como elas nos são transmitidas, vamos construindo o nosso “Ser” no mundo, nosso Conceito de Identidade. Porém, nas famílias formadas por vias não convencionais, essa questão pode se tornar uma angústia bastante intensa, quando um belo dia ouvem de seus pequenos a famosa pergunta: - Como eu nasci?.... Embora não seja motivo de desespero, muitos pais sentem-se inseguros diante dessa situação. Por medo de causar sofrimento, por não saberem abordar o tema ou insegurança, é comuns os pais omitirem, mentirem ou desviarem do assunto o que, mesmo sem querer, acabam por desconfirmar e desqualificar a percepção e intuição da criança, pois mesmo que ela não saiba exatamente a sua história, ela, mais que o adulto, capta as sensações e os sentimentos de seus cuidadores de forma bastante intensa, e sente que existe algo a ser dito, porque quando os pais sabem e não o dizem, algo se comunica, no silêncio.
Crianças pequenas não necessitam de longas explicações, o que elas querem saber é: se nasceram ou não da barriga da mãe, da barriga de quem nasceram, onde foram encontradas, o que quer dizer adoção. Quanto mais naturalmente o tema for tratado e ventilado na família, menos perguntas e menos interesse ele vai despertar. Quando se pode conversar livremente sobre o tema, inclusive na presença da criança, cria-se um clima afetivo mais seguro e trata-se a adoção e os métodos de fertilização como certa situação natural da vida, e que não precisa ser escondida.
Na Análise psicodramática, entendemos que mesmo a fertilização por doação de óvulo ou espermatozoide, estão relacionados à origem da criança que futuramente desenvolverá características físicas herdadas, e, portanto, deve ser esclarecida, na medida do possível. É válido o exemplo como: “A sementinha do papai ou da mamãe não estava boa, então pegamos uma sementinha do laboratório para você poder nascer”. Quanto mais isso se torna cotidiano, vai perdendo a importância e previne uma série de outras mentiras e omissões que, no futuro, seriam bem mais danosas.
Cada uma das diversas situações, seja o casal homoafetivo masculino que se tornou pai por adoção ou recorreu a uma gestação por substituição (barriga de aluguel), casal homoafetivo feminino que lançou mão de banco de esperma com óvulo de uma das mulheres, pode pedir uma abordagem diferente nessa conversa, mas independente da forma escolhida, o importante é que seja contado para a criança em uma linguagem acessível e simplificada.
Criar filho dá trabalho; há perguntas que não vêm com respostas prontas, há momentos de dúvidas, inseguranças, desorientação, mas o fundamental é que entre o conhecido e o que ainda está por vir, é possível construir juntos um caminho em que a criança possa crescer segura, sabendo de onde veio, sentindo que pode perguntar e confiando que encontrará, no vínculo com seus pais, um lugar de verdade, acolhimento e direção.
Profissionais atualizados e bem preparados na condução desse processo podem ajudar as famílias a passarem por essa fase de uma forma mais organizada, leve, com menos angústia e conflitos.
Larissa Barbosa
Psicoterapeuta Clínica, Especialista em Análise Psicodramática
Vânia Gori
Psicóloga Clínica e supervisora, Especialista em Análise Psicodramática
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