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Matéria Capa - Silêncios

Silêncios que gritam: a urgência de proteger nossas crianças

Entre dados alarmantes, histórias invisíveis e a dor que se esconde dentro de casa, o Brasil revela uma crise silenciosa – uma realidade urgente que exige olhar atento, escuta sensível e ação coletiva e efetiva

Há silêncios que não podem mais ser ignorados.

Há dores que não fazem barulho.

Não arrombam portas, não interrompem rotinas, não anunciam sua presença de forma evidente. Permanecem escondidas em gestos contidos, em olhares desviados e em mudanças sutis de comportamento que, à primeira vista, podem parecer passageiras.

Mas não são!

O silêncio de uma criança nunca é vazio. Ele pode carregar medo, culpa, confusão – e, inúmeras vezes, um pedido de ajuda que não encontra palavras ou estas permanecem sem som!

No Brasil, esse silêncio tem números. E estes já não permitem indiferença.

Dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que o país registrou mais de 87 mil casos de estupro em 2024 – o maior número da série histórica.

Em mais de 60% dessas ocorrências, as vítimas são crianças e adolescentes, sendo a maioria delas com menos de 14 anos. Os registros mostram ainda que a violência ocorre de forma recorrente ao longo de todo o dia, evidenciando não apenas a frequência alarmante desse tipo de crime, mas sua presença contínua em diferentes contextos da vida cotidiana.

Levantamentos do UNICEF, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, reforçam a dimensão do problema ao indicar que mais de 164 mil crianças e adolescentes foram vítimas de violência sexual no país entre 2021 e 2023 – um dos recortes mais amplos já consolidados.

O cruzamento desses dados revela um cenário persistente e preocupante: a violência sexual contra crianças e adolescentes não apenas se mantém em níveis elevados, como também segue exigindo respostas urgentes e contínuas.

Porém, especialistas alertam: esses números não contam toda a história.

A violência sexual contra crianças e adolescentes é, por natureza, silenciosa, camuflada, subnotificada e, muitas vezes, invisível – o que significa que, por trás dos dados oficiais, existe uma realidade ainda mais ampla, complexa e difícil de mensurar. Ao pensar nas vítimas, nosso coração dói!

Quando o problema deixa de ser estatístico

Os dados são fundamentais. Dimensionam, alertam, orientam políticas públicas e contribuem para a construção de respostas institucionais.

Entretanto, isoladamente, não traduzem a realidade.

Porque cada número carrega uma história.

Uma infância interrompida. Um vínculo rompido. Uma confiança traída. Um desenvolvimento emocional comprometido.

“Não estamos falando apenas de violência física. Estamos falando de uma ruptura profunda na estrutura emocional da criança”, explica uma psicóloga que atua no atendimento a vítimas.

Essa ruptura nem sempre se manifesta de forma imediata. Por vezes, instala-se de maneira silenciosa, prolonga-se ao longo do tempo e atravessa fases importantes da vida – da infância à vida adulta.

É nesse ponto que o problema deixa de ser apenas estatístico – e passa a ser humano, social e estrutural.

Um país que ainda não aprendeu a escutar!

O Brasil possui legislação avançada, campanhas de conscientização e uma rede de proteção formalmente estruturada.

Entretanto, ainda falha em um ponto essencial: escutar de verdade a real voz, sofrida, rouca!

Escutar não é apenas ouvir palavras.

É observar comportamentos.

É perceber mudanças.

É reconhecer sinais que não se manifestam de forma explícita!

“Na maioria dos casos, a criança não conta. Ela demonstra. E, se ninguém percebe, o ciclo continua”, afirma uma educadora da rede pública.

Essa dificuldade revela um dos maiores desafios no enfrentamento da violência sexual infantil: a incapacidade social de reconhecer o que não é dito.

A violência não persiste por ausência de leis, simplesmente!

Ela persiste por falhas de percepção, preparo e, por vezes, pela falta de intervenção diante de sinais que poderiam ser identificados. Falta ação imediata!

Uma realidade que atravessa o país – e chega até nós

Do cenário nacional ao estado de São Paulo, dos grandes centros ao interior, o padrão repete-se com consistência preocupante.

A violência não escolhe território, porém reconhece vítima!

Ela se instala onde há vulnerabilidade – e, principalmente, onde há silêncio.

Em municípios do interior paulista, inclusive na área de cobertura da revista, indicadores proporcionais e relatos da rede de proteção apontam a presença consistente de casos de violência sexual contra crianças e adolescentes – frequentemente, invisibilizados pela subnotificação.

Essa invisibilidade não significa ausência de casos.

Significa dificuldade de identificação, de denúncia e, quase sempre, de enfrentamento.

Isso não é um problema distante.

É uma realidade presente, contínua e, muitas vezes, silenciosamente naturalizada, banalizada.

O retrato do Brasil: quando os números revelam o que o silêncio esconde

Se os dados apresentados, na abertura desta reportagem, já indicavam a dimensão do problema, é na análise desse mesmo conjunto de informações que a realidade se revela ainda mais contundente.

Mais do que o volume de casos registrados, o que chama atenção é o padrão que se repete, em todo o país.

A maior parte das vítimas é composta por crianças e adolescentes, frequentemente com menos de 14 anos. Em muitos desses casos, conforme apontam os próprios levantamentos nacionais, o agressor não é um desconhecido – é alguém do convívio, inserido no ambiente familiar ou próximo da vítima.

Esse dado desmonta uma das percepções mais perigosas sobre a violência sexual infantil: a ideia de que o risco está fora.

Na prática, ele está dentro.

E, por vezes, protegido por vínculos afetivos, relações de confiança e, sobretudo, pelo silêncio.

Outro aspecto evidenciado pelos dados já citados é a recorrência. A violência raramente ocorre de forma isolada – ela tende a se repetir, prolongando-se ao longo do tempo, sem ser interrompida ou impedida.

Isso ajuda a explicar por que tantos casos permanecem invisíveis.

Especialistas apontam que uma parcela significativa das situações reais nunca chega aos registros oficiais – seja por medo, vergonha, dependência emocional ou pela dificuldade de reconhecer a violência dentro do próprio ambiente familiar.

Mais do que números, o que esses dados revelam é uma estrutura silenciosa e persistente.

Uma realidade que não se limita às estatísticas – mas se sustenta, sobretudo, naquilo que ainda não é dito, não é percebido e não é interrompido; por vezes, algo é percebido porém não lhe é dado o devido valor!

Mais do que números, um padrão

Ao aprofundar a leitura dos dados apresentados – com base em levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública – emerge um padrão que se repete, com inquietante consistência.

As vítimas são, em sua maioria, meninas.

Grande parte delas tem menos de 14 anos.

E, na maior parte dos casos, o agressor não é um desconhecido – é alguém próximo, inserido no convívio familiar.

O crime, portanto, acontece onde deveria haver proteção: dentro de casa ou em ambientes de confiança.

Esse padrão desmonta uma das percepções mais equivocadas da sociedade: a ideia de que o perigo está fora.

Na prática, ele está dentro – sustentado por vínculos afetivos, relações de proximidade e dinâmicas que dificultam o reconhecimento da violência.

E é justamente essa proximidade que silencia, que impede a denúncia e também prolonga o ciclo de abuso.

São Paulo: estrutura não impede o avanço

No estado de São Paulo, frequentemente apontado como referência em estrutura de segurança pública e rede de proteção, os dados reforçam a complexidade do problema.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado, foram registrados cerca de 14 mil casos de estupro em 2024 – a maioria classificada como estupro de vulnerável.

O dado evidencia uma contradição relevante: mesmo com estrutura, políticas públicas e canais de denúncia consolidados, a violência persiste, insiste!

Isso sugere que o enfrentamento não depende apenas da existência de mecanismos formais, mas da capacidade efetiva de identificar, interromper e romper o ciclo silencioso em que a violência se apoia!

O interior e os limites da sensação de segurança

Existe um imaginário coletivo de que cidades do interior são, por natureza, mais seguras.

Em determinados indicadores, essa percepção pode se confirmar.

Mas NÃO quando o assunto é violência sexual.

Nesse contexto, a incidência do problema está menos relacionada à geografia e mais a fatores como vulnerabilidade, relações de poder e, sobretudo, silêncio.

Em ambientes onde os vínculos são mais próximos e as relações, mais fechadas, a identificação e a denúncia tendem a ser mais difíceis.

E essa dificuldade não apenas oculta os casos – ela contribui diretamente para a manutenção de um ciclo invisível, sustentado pela omissão, pelo medo e pela ausência de preparo para reconhecer sinais.

Quando a realidade se impõe

A violência sexual contra crianças não é um evento isolado.

Não se trata de um desvio pontual – tampouco de exceção.

Ela é estrutural.

E permanece assim porque, em grande parte dos casos, não é identificada, não é denunciada e não é enfrentada com a profundidade necessária.

Para cada ocorrência registrada, especialistas estimam que inúmeras outras permanecem ocultas.

Diante desse cenário, já não é mais possível alegar desconhecimento – apenas escolha.

O ciclo que se perpetua, no silêncio

Quando o abuso não é interrompido, ele tende a se repetir – e, em muitos casos, a prolongar-se por anos, muito tempo!

Isso acontece porque, frequentemente, a criança não consegue verbalizar o que está vivendo.

Os sinais existem.

Mas não são percebidos.

O agressor continua tendo acesso.

E o silêncio sustenta o ciclo.

Não se trata da ausência de indícios.

Trata-se da incapacidade de reconhecê-los.

O olhar que pode interromper tudo

Diante dessa realidade, um elemento torna-se decisivo: alguém perceber.

Um professor.

Um vizinho.

Um familiar.

Um profissional de saúde.

“Quase sempre, há sinais. O problema é que nem sempre há alguém preparado para reconhecê-los”, afirma uma educadora.

Essa é a linha mais tênue entre a continuidade da violência e sua interrupção.

Porque, às vezes, não é a ausência de sinais que sustenta o abuso – é a ausência de um olhar preparado para reconhecê-los.

A dor que não termina quando o abuso acaba

Mesmo quando a violência cessa, seus efeitos permanecem.

A criança pode crescer carregando culpa, vergonha, medo, dificuldade de confiar e fragilidade emocional.

“O trauma não desaparece com o tempo. Ele precisa ser acolhido e tratado”, explica uma especialista em saúde mental.

O enfrentamento da violência não termina na denúncia.

Ele começa ali – no cuidado contínuo, no acompanhamento e na reconstrução emocional.

Entender para proteger

Durante muito tempo, a violência sexual infantil foi tratada com superficialidade, por meio de termos vagos ou, em muitos casos, pelo silêncio institucional.

Todavia, enfrentá-la exige clareza.

Materiais técnicos produzidos por Conselhos de Direitos da Criança e Redes de Proteção reforçam um princípio fundamental: não é possível proteger aquilo que não se compreende.

De forma objetiva, a violência sexual envolve qualquer situação em que a criança é exposta a atividades de natureza sexual inadequadas à sua idade ou ao seu desenvolvimento.

Isso pode ocorrer por manipulação, coerção, ameaça ou abuso de poder – e, por vezes, sem o uso de força física.

Abuso e exploração: uma distinção necessária

O abuso sexual ocorre quando há utilização do corpo da criança para satisfação de um adulto ou de alguém, em posição de poder.

A exploração sexual envolve troca, lucro ou qualquer forma de vantagem – como na prostituição infantil, na produção de conteúdo sexual e no aliciamento para fins comerciais.

Essa distinção é essencial, tanto para a compreensão do problema, quanto para o encaminhamento adequado dos casos.

Os sinais existem – o desafio é enxergar

Na maioria das vezes, a criança não verbaliza o que está acontecendo.

Mas ela demonstra.

Mudanças de comportamento costumam ser os primeiros sinais:

- Retraimento

- Agressividade

- Isolamento

- Queda no rendimento escolar

- Ansiedade

- Distúrbios do sono

Há também sinais mais específicos, que exigem atenção imediata:

- Sexualização precoce

- Medo de determinadas pessoas

- Resistência a ambientes específicos

O corpo também pode apresentar sinais físicos.

Nenhum desses indícios, isoladamente, confirma a ocorrência de abuso.

Mas todos exigem atenção.

A escola e a família: entre a percepção e a negação

A escola ocupa um papel estratégico na identificação de sinais, pela convivência contínua com a criança e pela possibilidade de observar mudanças, ao longo do tempo.

Já no ambiente familiar, essa identificação pode ser mais complexa – especialmente quando há vínculos afetivos com o possível agressor.

“A negação é um mecanismo comum. É difícil aceitar”, explica uma psicóloga.

Mas ignorar sinais pode permitir que a violência continue.

Quando a suspeita precisa virar ação

Não é necessário ter certeza para agir.

Casos suspeitos devem ser comunicados ao Conselho Tutelar ou ao Disque 100, canal do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

A partir da notificação, a rede de proteção é acionada, envolvendo serviços de saúde, assistência social e segurança pública.

O atendimento pode incluir escuta especializada, encaminhamento para investigação e acompanhamento contínuo da vítima e de sua família.

Um princípio central orienta todo o processo: evitar a revitimização.

As marcas que ficam

Segundo o UNICEF e a Organização Mundial da Saúde, as consequências da violência sexual infantil podem incluir:

- Depressão

- Ansiedade

- Transtornos de estresse pós-traumático

- Dificuldades de relacionamento

- Baixa autoestima

Muitas vítimas desenvolvem sentimentos persistentes de culpa – mesmo sendo vítimas.

Quando o abuso ocorre dentro de relações de confiança, o impacto tende a ser ainda mais profundo.

Mas é fundamental afirmar: há possibilidade de reconstrução.

O abuso que chega pelas telas

A violência também se manifesta no ambiente digital.

Dados da SaferNet Brasil apontam crescimento nas denúncias de abuso sexual infantil online.

Entre os principais crimes estão:

- Aliciamento (grooming)

- Compartilhamento de imagens íntimas

- Sextorsão

O agressor cria vínculo, conquista confiança e, posteriormente, utiliza chantagem.

O risco não depende mais da proximidade física.

Ele está no celular.

O papel da família na era digital

A proteção não está apenas no controle.

Está na presença, no diálogo e na orientação.

Educação digital é essencial.

Crianças precisam compreender riscos, limites e formas de se proteger.

Onde buscar ajuda

O enfrentamento depende de uma rede integrada, que envolve:

- Conselho Tutelar

- Polícia Civil

- Serviços de saúde

- Assistência social

- Apoio psicológico

No âmbito local, iniciativas institucionais também têm papel fundamental, na orientação da população.

É o caso da cartilha “Vamos Proteger Nossas Crianças e Adolescentes”, desenvolvida em parceria entre órgãos públicos e a rede de proteção – incluindo assistência social, sistema de justiça, conselhos de direitos e entidades da sociedade civil.

O material reúne orientações claras sobre identificação de sinais, formas de denúncia e funcionamento do fluxo de atendimento.

Mais do que informar, a cartilha atua como instrumento prático de apoio à tomada de decisão, em situações de suspeita.

O Disque 100 funciona 24 horas por dia, de forma gratuita e anônima.

Casos ocorridos no ambiente digital também podem ser denunciados por meio da SaferNet Brasil.

O princípio é claro: suspeitar já é motivo suficiente para agir.

O silêncio não pode mais ser uma opção

Ao longo desta reportagem, dados foram apresentados, caminhos foram explicados e a realidade foi exposta.

Não para causar medo.

Mas para provocar consciência.

A violência não é invisível – ela é invisibilizada.

Não é rara – é silenciada.

Não é distante – está mais próxima do que se imagina.

A responsabilidade não pode ser terceirizada.

Ela está no olhar que percebe.

Na escuta que acolhe.

Na atitude que não se omite.

Proteger não exige heroísmo.

Exige presença.

Exige responsabilidade.

Exige coragem.

Porque, por vezes, a diferença entre a continuidade da violência e a sua interrupção está em alguém, que decidiu agir.

Para que nenhuma infância seja interrompida.

Que os silêncios deixem de gritar.

Que as vozes sejam ouvidas.

Que a rede funcione.

E, sobretudo: que nenhuma criança precise sofrer em silêncio!

Fontes: Fórum Brasileiro de Segurança Pública – Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2024/2025)/ UNICEF/ Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania – Disque 100/ Ministério da Saúde – Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN)/ SaferNet Brasil/ Organização Mundial da Saúde/ Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo/ Conselho Nacional de Justiça/ Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente/ Redes municipais de proteção social, saúde e assistência

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