Comportamento - Filhos
Adolescência: a travessia necessária entre conflitos, autonomia e construção da própria identidade
A adolescência pode ser compreendida como a fase que vai, aproximadamente, dos 12 aos 18 anos, com variações individuais. Trata-se, como já se sabe, de um período naturalmente turbulento. Diante disso, enquanto pais, responsáveis ou educadores, a que se deve estar atentos? O que se pode esperar e, sobretudo, como se pode ajudar?
Até a transição para a adolescência, o projeto de vida de uma criança costuma estar majoritariamente sob a condução dos pais. No entanto, nessa nova fase, pouco a pouco, o adolescente passa a construir seu próprio conceito de identidade – buscando reconhecer quem é – e a assumir, gradualmente, as rédeas de seu projeto de vida. Embora não seja tarefa simples, essa mudança de comando é desejada tanto pelos filhos, que buscam maior autonomia, quanto pelos pais e responsáveis, que, ao final, sentem certo alívio, ao perceberem seus filhos trilhando os próprios caminhos.
Ainda que desejada, essa transição apresenta-se como um período intensamente conflituoso, marcado por discussões e confrontos, que se tendem a intensificar, quando os pais percebem que os filhos conduzem sua vida de maneira diferente daquela que lhes haviam idealizado.
É comum que muitos pais continuem tratando os filhos como crianças, apoiando-se, sobretudo, na dependência financeira ainda existente. Esse modo de condução pode abranger diversos aspectos da vida do adolescente: escolha profissional, comportamento afetivo e sexual, religião, forma de vestir-se, entre outros. Nesse contexto, torna-se essencial que os pais flexibilizem, ainda que gradualmente, suas formas de condução, mas, principalmente, que se mantenham abertos ao diálogo. Lembrando que flexibilizar não é a ausência de parâmetros.
Para o adolescente, esse também não é um período simples. Ao mesmo tempo em que ele deseja liberdade e autonomia, ele se vê diante de fatores limitantes, como a dependência financeira e de moradia. Surgem angústias pertinentes e, de certo modo, necessárias, que o impulsionam a deixar para trás o universo das idealizações e ilusões infantis – tanto em relação aos pais, quanto às regras da vida e às fantasias que antes o sustentavam. Nesse movimento, o adolescente passa a refletir sobre o próprio futuro e sobre as formas de construir seu sustento e seus projetos.
Antes, porém, de alcançar esse nível de reflexão, é natural que questione as regras preestabelecidas, especialmente as regras familiares e aquelas presentes em seu meio social. Por volta dos 12 anos, observa-se um afastamento progressivo em relação aos pais e familiares, acompanhado de uma busca mais intensa por vínculos afetivos com os amigos, que passam a ocupar um espaço central, nas trocas e confidências.
Antes de consolidar suas próprias convicções, o adolescente vivencia o que se pode chamar de “identidade de grupo”, fase marcada por intensos confrontos familiares e, em alguns casos, pelo início do contato com substâncias, como álcool, maconha e hoje também os cigarros eletrônicos.
Os embates característicos dessa fase costumam ser desafiadores, carregados de emoção, frustrações e, por vezes, desrespeitos de ambas as partes. Nesse cenário, a psicoterapia – tanto para o adolescente quanto para a família – pode desempenhar um papel fundamental, auxiliando na mediação de conflitos, na construção de acordos e na ampliação do diálogo. Para o adolescente, representa também um espaço importante de elaboração, do reconhecimento de sua identidade e do planejamento de seu futuro.
Quando os pais compreendem que estão diante de um período de profundas transformações – em que o corpo infantil dá lugar ao corpo adulto, acompanhado de mudanças psicológicas e emocionais significativas, e da passagem da dependência para a autonomia – tornam-se mais capazes de entender a adolescência como aquela fase de transição entre a infância e o início da vida adulta. E, sobretudo, de reconhecer que uma adolescência sem conflitos pode não favorecer plenamente o desenvolvimento da maturidade e da individuação.
Sob a perspectiva da Análise Psicodramática, esse é também um período em que se mobilizam três tipos de angústia. A angústia existencial, relacionada ao projeto de vida; a angústia circunstancial, ligada principalmente aos conflitos familiares e às divergências entre o que o adolescente deseja e o que os pais consideram mais adequado; e, por fim, a angústia patológica, que pode emergir, quando o psiquismo passa a ser mais exigido diante das demandas por autonomia, desempenho e conquistas. Esse aumento de tensões internas, antes menos evidentes na infância, pode trazer à tona aspectos neuróticos ou, em alguns casos, estar associado ao uso de substâncias alucinógenas, demandando atenção e, muitas vezes, acompanhamento psicoterapêutico.
Por fim, é importante que pais e responsáveis não se esqueçam de que, ao mobilizar suas questões, o adolescente também mobiliza, nos adultos, as próprias vivências da adolescência – revisitadas em sua memória, sejam elas resolvidas ou ainda carregadas de conflitos.
Vania Gori
Psicóloga clínica e professora, Especialista em Análise Psicodramática
Larissa Barbosa
Especialista em Análise Psicodramática
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