Fala Dr. - Abril Roxo
Da adolescência à vida adulta, a ida ao urologista precisa deixar de ser tabu e tornar-se parte da rotina de prevenção
Há um hábito silencioso que atravessa gerações: meninas crescem sabendo que precisam ir ao ginecologista. Meninos, não.
Entre dúvidas, vergonha e desinformação, muitos adolescentes e jovens entram na vida adulta sem nunca ter passado por uma avaliação urológica. E é justamente nesse vazio que mora um dos maiores riscos à saúde masculina: a falta de prevenção.
O Abril Lilás, campanha de conscientização sobre o câncer de testículo, surge como um convite urgente à mudança de cultura. Embora raro, esse tipo de câncer é o mais comum entre homens jovens – especialmente entre 20 e 40 anos – e exige atenção precoce.
De acordo com os dados mais recentes disponíveis do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), foram registradas mais de 4 mil mortes por câncer de testículo no Brasil, entre 2014 e 2023, sendo cerca de 60% na faixa dos 20 aos 39 anos. No mesmo período, o país contabilizou quase 48 mil cirurgias para retirada de testículos pelo SUS – números que, embora representem uma doença com altas chances de cura, revelam um problema maior: o diagnóstico ainda não acontece cedo o suficiente.
“Precisamos mudar o comportamento da sociedade em relação à saúde do adolescente masculino. Ele ainda chega ao consultório apenas quando há dor ou emergência, e não para prevenção”, explica o urologista Dr. Daniel Suslik Zylbersztejn (CRM-SP 131531 - RQE - 43922), coordenador da campanha #VemProUro, da Sociedade Brasileira de Urologia.
O corpo fala – e é preciso aprender a ouvir
Diferentemente do que muitos imaginam, o cuidado com a saúde masculina não começa aos 50 anos, com exames de próstata. Ele começa muito antes — ainda na infância e, principalmente, na adolescência.
É nessa fase que surgem condições comuns, por vezes silenciosas, mas com impacto direto na fertilidade e na qualidade de vida:
Varicocele, uma dilatação das veias dos testículos, está presente em até 25% dos homens e é uma das principais causas tratáveis de infertilidade.
Balanopostite, inflamação frequente da glande e do prepúcio, geralmente associada a infecções fúngicas.
Ejaculação precoce, que, embora comum na juventude, pode gerar insegurança e merece orientação adequada.
E, principalmente, o câncer de testículo, cujo sinal mais clássico é o surgimento de um pequeno caroço ou aumento de volume, na bolsa escrotal.
O ponto central é simples – e poderoso: o corpo dá sinais. O problema é que muitos homens ainda não foram ensinados a observá-los.
Um gesto simples que pode fazer toda a diferença
O autoexame testicular, realizado durante o banho, é uma ferramenta prática, rápida e eficaz. Ao apalpar os testículos e observar mudanças de tamanho, textura ou sensibilidade, é possível identificar alterações precocemente.
Quando descoberto no início, o câncer de testículo apresenta taxas de cura superiores a 90% – um dos índices mais altos entre os tumores.
Ainda assim, o diagnóstico precoce depende de um fator essencial: atenção.
“A conscientização é fundamental. O jovem precisa conhecer o próprio corpo e entender que procurar um especialista não é motivo de vergonha, mas de cuidado”, reforça o urologista Dr. Luiz Otavio Torres, presidente da SBU.
Muito além do consultório
A proposta da campanha #VemProUro vai além da prevenção de doenças. Ela busca criar uma nova relação do homem com a própria saúde – mais aberta, mais informada e menos cercada de tabus.
No portal oficial da campanha, jovens encontram orientação sobre puberdade, sexualidade, infecções sexualmente transmissíveis, fertilidade, uso de substâncias, atividade física e até vacinas importantes, como HPV e tríplice viral.
É um movimento que envolve não apenas adolescentes, mas também pais, educadores e profissionais de saúde.
Porque, no fundo, a mudança começa em casa – no diálogo, na informação e no exemplo.
Cuidar é um ato de responsabilidade
Falar sobre saúde masculina ainda exige romper barreiras culturais. Mas talvez seja justamente esse o papel do Abril Lilás: abrir espaço para uma conversa que deveria ocorrer naturalmente.
Cuidar do corpo, observar sinais, buscar orientação médica – tudo isso não deveria ser exceção. Deveria ser rotina.
E quanto antes esse cuidado começa, maiores são as chances de preservar não apenas a saúde, mas também a qualidade de vida, a fertilidade e o futuro.
Porque, no fim, prevenção não é excesso de zelo.
É maturidade. É consciência.
E, acima de tudo, é vida.
Fonte: https://portaldaurologia.org.br/
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